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Por que a faculdade não ensina Projeto Executivo?

Projeto Executivo: você aprendeu a projetar. Mas aprendeu a construir?

Existe um momento na vida de quase todo arquiteto recém-formado que se parece com sair de um simulador de voo e entrar, sem aviso, no cockpit de um avião de verdade.

Você passou anos discutindo conceito, partido, tipologia, história, representação e projeto arquitetônico. Então chega o primeiro emprego, o primeiro projeto de verdade, e alguém pergunta:

“Você consegue fazer o detalhe da platibanda?”

Ou:

“Cadê a tabela de esquadrias?”

Silêncio.

E não, isso não significa que você seja um arquiteto ruim.

A faculdade ensina — e precisa ensinar — a pensar arquitetura. O problema é que o mercado também espera que você saiba transformar essa arquitetura em uma construção possível, coordenada e executável.

É aí que começa o choque.

De repente aparecem perguntas que raramente fizeram parte da rotina do ateliê: onde passa a tubulação de esgoto? Como essa viga interfere no forro? Existe espaço para o duto do ar-condicionado? Como será feita a impermeabilização? Qual é o sistema construtivo dessa parede? O bombeiro aprova essa escada? Onde está o ponto elétrico? Como essa esquadria encontra a fachada?

Essas perguntas parecem pertencer a mundos diferentes, mas fazem parte do mesmo problema: como transformar uma ideia arquitetônica em algo que possa ser construído.

O Projeto Executivo não é “detalhar o projeto”

Esse talvez seja o primeiro conceito que precisamos mudar.

É comum tratar o Projeto Executivo como a última etapa do processo: o projeto está pronto, então agora basta “colocar mais informação nos desenhos”.

Não basta.

No Anteprojeto, uma parede pode ser apenas uma linha que representa uma intenção espacial. No Executivo, ela precisa começar a responder perguntas concretas: qual sistema construtivo será utilizado? Qual é a espessura real? Que acabamento recebe? Como encontra o piso e o teto? Onde estão os pontos elétricos? Como se relaciona com a estrutura?

O Executivo transforma intenção em instrução de trabalho.

E isso muda completamente a responsabilidade do arquiteto.

Pense na Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi. O conceito da casa suspensa sobre a paisagem é imediatamente reconhecível. Mas a arquitetura não existe apenas por causa do partido. Para aquela ideia chegar à obra, foi necessário resolver estrutura, esquadrias, cobertura, drenagem, materiais, encontros e inúmeros outros detalhes que normalmente desaparecem quando olhamos apenas para a fotografia final.

É justamente esse trabalho “invisível” que permite que a arquitetura sobreviva ao encontro com a realidade.

Erro Comum

Achar que o Projeto Executivo começa quando o projeto arquitetônico termina.

Essa visão cria um efeito dominó: decisões importantes são deixadas para o final, as disciplinas desenvolvem seus projetos sem informação suficiente e os conflitos aparecem justamente quando o prazo está acabando.

Resultado? Retrabalho, improvisações, revisões intermináveis e, muitas vezes, soluções definidas na própria obra.

Um bom projeto executivo não é aquele que tem muitos desenhos. É aquele em que as decisões importantes foram tomadas na hora certa e as informações necessárias para construir estão coordenadas.

Por isso, projeto executivo precisa de método, sequência e pontos de verificação — e não apenas de habilidade para desenhar detalhes.

Na prática

Imagine uma cozinha perfeitamente resolvida no layout.

Então entra o projeto hidráulico e descobre que a prumada precisa ocupar exatamente aquele espaço. Depois, a estrutura posiciona uma viga onde você imaginava instalar a coifa. A climatização precisa de um duto maior do que o espaço disponível no forro. Quando você percebe, a cozinha que estava “pronta” precisa ser redesenhada.

Isso tem nome: compatibilização.

E é um dos assuntos que vamos explorar ao longo desta série, porque coordenar projetos não significa simplesmente receber arquivos dos projetistas e colocá-los dentro da mesma pasta. Significa entender como cada disciplina interfere na arquitetura e antecipar os conflitos antes que eles cheguem à obra.

Essa é uma das grandes viradas de chave para quem está começando: deixar de perguntar apenas “como isso fica?” e começar a perguntar também:

“Como isso se constrói?”

As duas perguntas não competem. Na verdade, a segunda é o que permite que a primeira sobreviva até a inauguração.

Do conceito à obra

A partir daqui, vamos percorrer o caminho completo de desenvolvimento de um projeto: da primeira reunião com o cliente até os detalhes construtivos, passando pelas etapas, documentos, disciplinas complementares, compatibilização, revisões e coordenação.

No próximo artigo, vamos montar o mapa geral do processo de desenvolvimento de um empreendimento, entendendo o que acontece em cada etapa e, principalmente, onde o Projeto Executivo se encaixa nessa história.

Depois, vamos entrar em cada uma dessas etapas com mais profundidade, sempre olhando para aquilo que realmente interessa no escritório: o que fazer, quando fazer, o que conferir e quais erros evitar.

Porque projeto executivo não é a parte burocrática que vem depois da arquitetura.

É o momento em que a arquitetura precisa provar que consegue virar obra.

E, se você ainda sente aquele frio na barriga quando alguém pede um detalhe construtivo, uma compatibilização ou um conjunto executivo completo, fique tranquilo.

Você não está atrasado.

Você está justamente começando a aprender uma parte essencial da profissão.

Texto de Álvaro Letelier

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