Já ouviu falar em repertório? Tem muita gente por aí falando nele como a solução mágica para resolver o seu problema de criatividade.
Não me entenda mal, ter repertório ajuda sim no processo criativo e de composição na arquitetura. Mas do jeito que está sendo proposto por alguns arquifluencers, acaba sendo uma compreensão excessivamente simplificada do processo criativo.
Ao apresentar o repertório como uma espécie de solução para o “bloqueio criativo” e recomendar pastas de Pinterest, Instagram, Milanote e coleções de projetos organizadas por categorias, corre-se o risco de transformar aquilo que deveria ser um processo de “investigação crítica” em um exercício de armazenamento e combinação de imagens.
Criatividade em arquitetura dificilmente nasce simplesmente de “saber como outros arquitetos resolveram” determinado problema. Isso pode ajudar a ampliar o conhecimento disciplinar, evidentemente, mas existe uma diferença importante entre conhecer referências e desenvolver pensamento arquitetônico. Um estudante pode possuir milhares de imagens salvas e, ainda assim, ser incapaz de formular uma questão espacial própria.
Se por acaso você encontra por aí alguém falando que “ao receber ‘o tema’ de um projeto, uma escola ou um museu, o repertório fornece o ponto de partida”, fuja!
Repertório e investigação
Primeiro, escola e museu são programas. O pensamento projetual começa quando o arquiteto ultrapassa essa classificação funcional e pergunta o que existe naquele programa, naquele lugar ou naquela situação que merece ser investigado. Quando ele se pergunta, por exemplo, “qual é o ato principal” que define aquele programa.
É nesse momento que a criatividade deixa de ser a procura por referências e passa a ser produção de perguntas.
Ah ótimo! Agora invés de ter um monte de imagens para ver só tenho um monte de perguntas e o dobro de dúvidas.
Mas não leve para o lado negativo.
Um processo criativo arquitetônico mais consistente pode nascer da observação crítica de situações espaciais existentes: como as pessoas ocupam uma praça, como percorrem um edifício, como procuram sombra, como se apropriam de uma escada, uma calçada, um corredor ou um pátio.
Percebe? Tudo isso aqui são perguntas.
Pode surgir da percepção de um conflito entre espaço público e privado, de uma condição particular da cidade, de uma relação inesperada entre interior e exterior ou mesmo de uma contradição social existente naquele território.
Ou seja, antes de procurar uma imagem semelhante no Pinterest, talvez seja mais interessante perguntar o que está acontecendo naquele lugar e por quê. E perceba que nesse caso, não são formas ou desenhos que estão sob análise e compreensão, mas sim o ser humano. Como se dá o seu comportamento nos locais; como nós enquanto usuários dos espaços agimos e nos permitimos agir nos locais.
Na resposta que você der virá a sua proposta de solução arquitetônica, que no fim das contas, terá de nascer de um processo de criação e que após a sua conclusão, fará parte do seu repertório.
Repertório e experiência vivida
Veja que a arquitetura também nasce da experiência direta do espaço. Existe uma diferença enorme entre conhecer um edifício por fotografias e experimentá-lo corporalmente. Uma fotografia mostra uma determinada posição, enquadrada em determinado instante. O corpo percebe, ao longo de determinado período de tempo, temperatura, escala, profundidade, reverberação sonora, textura, cheiro, luminosidade, peso, umidade, sombra e movimento.
Arquitetura não é apenas aquilo que vemos. É aquilo que vivenciamos.
Ao ocupar um espaço, deixamos de ser apenas observadores e passamos a fazer parte dele. Nossos corpos, movimentos, escolhas e formas de interação são, em alguma medida, atravessados pela maneira como esse espaço se configura. A arquitetura, portanto, não apenas abriga nossas ações: ela também participa delas.
É nessa relação entre a forma do espaço e aquilo que nele acontece que podemos aproximar essa discussão da ideia de forma-conteúdo trabalhada por Milton Santos: o espaço não é apenas aquilo que se apresenta materialmente, mas também aquilo que se realiza, se transforma e ganha significado por meio das relações sociais.
Por isso, formar repertório arquitetônico deveria significar também caminhar pela cidade, entrar em edifícios, permanecer nos espaços, observar como a luz muda ao longo do dia, perceber quando um ambiente comprime ou libera o corpo, tocar superfícies, ouvir os sons e compreender como as pessoas se apropriam de cada lugar. E isto aqui deveria ser uma prática constante durante a faculdade. Você precisa treinar o olhar (e a mão) para observar e analisar todas estas situações.

Desta maneira, deixamos o computador de lado e passamos a pensar em possibilidades de como ocupar os locais. E aí que forçamos a criatividade a trabalhar. Como posso ocupar a escada de uma forma diferente, ou como sombrear tal lugar de forma diferente?
E não é sobre reinventar a roda, mas de poder desenvolver novas possibilidades de ocupação ou formas de habitar; ou ainda trazer uma roupagem mais atual/tecnológica para aquela ação já cristalizada no nosso cotidiano.
Parafraseando um poema de Walt Whitman, na arquitetura quem dá o sentido é mais importante que um significado prévio inscrito no objeto.
Há uma dimensão corporal da arquitetura que nenhuma pasta no PC com imagens consegue substituir.
Repertório e materialidade
Da mesma maneira, dizer que repertório técnico significa saber “como o concreto, a madeira, o vidro ou o aço se comportam ou como são fixados” ainda parece insuficiente. O material não é apenas solução construtiva. Há também a poética do material, a chamada materialidade.
O concreto pode transmitir peso, continuidade e permanência. A madeira pode revelar calidez, textura e transformação. Uma parede pode ser massa, superfície, filtro ou espessura habitável. A luz pode transformar completamente a percepção de um mesmo material ao longo do dia.
Investigar a materialidade significa perguntar não apenas “como isso é construído?”, mas também “o que esse material produz espacialmente?”, “o que esse material me transmite?”. Poderíamos começar a falar em tectônica. Algum “deslumbrado” pensará em chamar de “neuroarquitetura” …
É justamente essa passagem do conhecimento espacial/material para a investigação arquitetônica que permite transformar informação em projeto.
Referencias e a (falta de) análise crítica
O mesmo vale para os chamados “projetos de referência”. Plantas, cortes e fachadas são fundamentais, mas não deveriam ser estudados simplesmente porque representam edifícios que “deram certo”. Essa expressão é problemática porque elimina justamente aquilo que deveria interessar ao estudante: por que determinada solução foi tomada? Em resposta a qual problema? Dentro de quais circunstâncias sociais, culturais, climáticas, econômicas e tecnológicas?
Uma obra de arquitetura não deveria funcionar como catálogo de respostas.
Deveria funcionar como objeto de investigação.
Estudar criticamente uma referência significa desmontá-la intelectualmente: compreender suas decisões, reconhecer suas virtudes, perceber suas limitações e, inclusive, discordar dela.

Repertório e a arquitetura como objeto de consumo
Existe ainda outro risco nessa ideia midiática de repertório, construída predominantemente por plataformas digitais. Instagram, Pinterest e sites especializados tendem a transformar arquitetura em sequência de imagens visualmente sedutoras, frequentemente descontextualizadas.
É a arquitetura e urbanismo sendo pensados e construídos por uma lógica de consumo rápido e descartável. Projetos construídos em países, climas, sociedades e condições econômicas completamente diferentes aparecem lado a lado, reduzidos a uma estética facilmente consumível, que servem apenas para o deleite de nossa visão.
Um repertório de consumo, um repertório midiático. Encarado desta maneira, o repertório deixa de ampliar a criatividade e começa justamente a limitá-la.
É importante que se desconstrua a concepção da arquitetura enquanto objeto (de consumo) e passe a ser encarado como a concepção de um espaço a ser sentido e produzido enquanto experiência.
O estudante começa a projetar procurando imagens que se aproximem daquilo que imagina, quando poderia fazer o contrário: observar criticamente uma situação real e permitir que dela surgissem questões arquitetônicas próprias, que atendam as demandas do lugar, do contexto e do material.
Uma nova proposta para o repertório
Por isso, talvez seja necessário inverter a lógica, e em vez de pensar em
- Tenho um problema
- Vou procurar referências
- Entre elas escolher solução
- Vou encaixar/adaptar ela no projeto
poderíamos pensar:
- Observar
- Questionar
- Investigar/Experimentar
- Formular uma hipótese espacial/material
- Confrontá-la com referências
- Abstrair
- Projetar
- Criticar
- O resultado
- Corrigir/adaptar
Este passo a passo pode auxiliar aos profissionais atuantes e aos futuros colegas de profissão a retomar uma arquitetura da experiência, com proposições que se dão como resistência ao mundo (capitalista) instituído e previamente pensado e projetado. Buscar a almejar múltiplas percepções e apropriações do espaço e outras políticas de relação com nosso entorno comum.
Nesse processo, repertório continua sendo fundamental. Mas ocupa outro lugar.
Ele deixa de ser um catálogo utilizado para desbloquear a criatividade e passa a funcionar como instrumento de confronto intelectual. Uma referência pode confirmar uma hipótese, contradizê-la, ampliá-la ou mostrar que determinado problema já foi investigado de outras maneiras.
Isso exige algo mais difícil do que simplesmente “construir repertório”: exige construir pensamento crítico.
E pensamento crítico em arquitetura se forma observando a cidade e suas contradições, investigando a experiência cotidiana dos espaços, compreendendo os conflitos sociais existentes em determinado território, estudando história e teoria, experimentando materiais e construções e, sobretudo, aprendendo a formular perguntas diante do mundo.
Como uma possível metodologia para auxiliar nessa construção do pensamento e percepção crítica dos ambientes, podemos apontar para a fenomenologia. O estudo fenomenológico nos auxilia a captar e trazer à tona o “invisível espacial” presente no visível de cada percepção, de cada visão, de cada paisagem ou de cada aparição.
Caso tenha interesse em saber mais sobre esse método de pesquisa/percepção espacial procure conhecer a produção teórica do arquiteto norueguês Christian Norberg-Schulz, o confira alguns dos textos e dissertações, aqui no Arquitechne, como “Ensino de arquitetura na perspectiva fenomenológica”, “Uma maneira de ver as pessoas e o lugar”, “A construção do lugar arquitetônico e a experiência do sujeito”, ou “Uma Arquitetura ao Corpo – Investigações sobre a profundidade fenomenológica para a potencialização da percepção no espaço construído”.
Um conselho
Talvez, depois de toda esta “argumentação” (ou resmungo), o conselho mais importante que eu daria para um estudante de arquitetura não seria simplesmente salvar mais projetos, seria:
- Sair da tela.
- Caminhar.
- Entrar nos edifícios.
- Sentar-se nas praças.
- Observar como as pessoas ocupam os lugares.
- Perceber a sombra, a temperatura, a escala, o som, o peso e a textura das coisas.
Se perguntar: por que determinado espaço é acolhedor e outro não? Por que uma rua permanece cheia enquanto outra permanece vazia? Por que determinadas arquiteturas aproximam pessoas e outras as separam? Por que certos materiais envelhecem com dignidade enquanto outros rapidamente parecem descartáveis?
E depois voltar a projetar.
Porque a criatividade arquitetônica não está em possuir muitas imagens e esquemas guardados em uma pasta no PC.
Ela começa quando aprendemos a olhar criticamente, sentir profundamente e formular boas perguntas sobre o espaço e sobre o mundo que habitamos.
Texto de Álvaro Letelier, com colaboração de Rodrigo Riva