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O que é o Partido Arquitetônico?

Você sabe o que é o Partido em Arquitetura?

Entre todas as palavras que os estudantes de arquitetura escutam na faculdade, poucas geram tanta confusão quanto partido arquitetônico. Muita gente imagina que ele seja apenas um desenho inicial, um croqui bonito ou aquela primeira ideia que surge “do nada”. Mas não é isso.

O partido é muito mais importante do que um simples esboço. Ele é o momento em que todo o pensamento arquitetônico começa a ganhar forma.

Para entender isso, vale imaginar o projeto como uma sequência lógica de etapas.

Primeiro surge uma inquietação. Você observa um lugar, percebe uma situação espacial interessante, identifica um problema ou faz uma pergunta que merece ser investigada. Dessa observação nasce um conceito arquitetônico: uma ideia, uma qualidade espacial ou um princípio que desperta seu interesse e que passa a orientar sua pesquisa.

Mas um conceito, sozinho, ainda é muito abstrato. Ele precisa ser investigado e colocado à prova. É justamente aí que surge o tema arquitetônico.

O tema é a pesquisa arquitetônica que aprofunda aquele conceito. Ele procura responder perguntas como:

  • Como essa qualidade espacial acontece?
  • Por que ela acontece?
  • Em quais situações ela aparece?
  • Como ela pode ser utilizada para produzir arquitetura?

O tema transforma uma ideia em conhecimento.

Ao mesmo tempo, existe outra dimensão do projeto: a realidade.

Todo edifício precisa atender pessoas, atividades, normas, fluxos, dimensões, relações funcionais e necessidades concretas. Esse conjunto de exigências constitui o programa arquitetônico.

É importante perceber que o programa não diz como será a arquitetura. Ele apenas informa o que ela precisa fazer.

Por exemplo, um programa pode dizer que uma escola necessita de dez salas de aula, biblioteca, refeitório, quadra esportiva e administração.

Mas duas escolas com exatamente o mesmo programa podem resultar em arquiteturas completamente diferentes.

Por quê?

Porque o programa não produz arquitetura por si só.

Quem faz isso é o arquiteto.

E é justamente nesse momento que aparece o partido arquitetônico.

O partido é a síntese do pensamento arquitetônico

Depois de compreender o conceito, aprofundar o tema, estudar o lugar e conhecer o programa, o arquiteto começa a imaginar como tudo isso poderá existir como espaço construído.

Essa primeira síntese recebe o nome de partido arquitetônico.

Como explica León Leroy Zoeger, o partido é um croqui ou diagrama onde ideias e conceitos se transformam em um conjunto comunicável de indicações que orientam o projeto. É uma representação gráfica de um processo intelectual, na qual diferentes ideias passam a formar um conjunto coerente e unitário.

Ou seja, o partido é o primeiro momento em que o pensamento deixa de existir apenas na cabeça do arquiteto e passa a existir também sobre o papel.

É a primeira imagem consciente do edifício.

O partido não é inspiração

Existe um mito muito forte na arquitetura de que o arquiteto olha para uma folha em branco e, de repente, desenha uma solução brilhante.

Na prática, não funciona assim.

O partido não nasce de um momento mágico nem de uma criatividade inexplicável.

Ele nasce do conhecimento.

Como afirma Zoeger, essa antecipação figurativa inicial é resultado da compreensão que o arquiteto desenvolveu sobre todas as variáveis envolvidas no projeto. A imaginação é importante, mas ela trabalha sobre uma base sólida de pesquisa, observação, experiência e reflexão.

Por isso, um bom partido nunca é um desenho arbitrário.

Ele é consequência de tudo aquilo que o arquiteto estudou antes de começar a desenhar.

O partido é a primeira síntese espacial

Enquanto o conceito responde o que é importante, o tema responde o que será investigado e o programa responde o que precisa funcionar, o partido responde uma pergunta diferente:

Como tudo isso passa a existir como arquitetura?

Nesse momento, o arquiteto começa a tomar decisões fundamentais.

Como o edifício ocupará o terreno?

Como as pessoas irão percorrê-lo?

Onde estarão os espaços principais?

Como a luz entrará?

Como será a relação entre cheio e vazio?

Como o edifício dialogará com a paisagem?

Qual será sua organização espacial?

Como estrutura, forma, uso, técnica e experiência passarão a fazer parte de um único organismo?

O partido é justamente essa primeira resposta.

Por isso ele costuma aparecer como um diagrama, um croqui ou um desenho extremamente simples. A intenção não é resolver todos os detalhes, mas revelar a lógica que organiza todo o edifício.

O partido contém o DNA do projeto

Roger Clark e Michael Pause definem o parti como a ideia predominante do edifício, aquela que reúne suas características essenciais.

Segundo os autores, ele contém o mínimo indispensável do projeto, aquilo sem o qual aquela arquitetura deixaria de ser ela mesma.

É uma definição extremamente interessante.

Podemos pensar no partido como o DNA do edifício.

Assim como uma pequena sequência genética contém as informações que orientarão o desenvolvimento de um organismo inteiro, o partido contém as decisões fundamentais que orientarão todo o restante do projeto.

Plantas, cortes, fachadas, estrutura, materiais, detalhes construtivos e soluções técnicas deverão nascer dessa ideia inicial.

Se, durante o processo, essas decisões fundamentais forem abandonadas, provavelmente não estaremos mais desenvolvendo o mesmo projeto, mas iniciando outro.

O partido organiza o processo de projeto

Existe outro aspecto importante.

O partido não é apenas um desenho.

Ele também funciona como um instrumento de decisão.

Ao longo do projeto surgirão centenas de escolhas: mudar um ambiente, alterar um acesso, modificar uma cobertura, reposicionar uma circulação, trocar um sistema estrutural.

Como saber qual decisão é a melhor?

Voltando ao partido.

Sempre que houver dúvida, a pergunta deve ser:

Esta decisão fortalece ou enfraquece o partido?

Se ela reforça a ideia principal do projeto, provavelmente está no caminho certo.

Se contradiz a lógica que organizava a proposta, talvez seja necessário repensá-la.

Por isso dizemos que o partido orienta todo o processo compositivo.

Ele mantém a coerência entre todas as partes do projeto.

O partido também evolui

Embora seja chamado de ponto de partida, isso não significa que o partido apareça pronto.

Muito pelo contrário.

Ele é construído.

O arquiteto desenha, testa alternativas, faz maquetes, experimenta diferentes soluções, compara possibilidades, volta atrás, modifica decisões e redesenha inúmeras vezes.

Cada tentativa aumenta sua compreensão do problema arquitetônico.

Esse movimento de avanços e retrocessos faz parte da própria natureza do projeto.

Projetar é investigar.

Projetar é pensar desenhando.

Como conceito, tema, programa e partido trabalham juntos?

Uma maneira simples de entender essa relação é imaginar que cada elemento responde a uma pergunta diferente do projeto.

  • Conceito arquitetônicoO que chamou minha atenção? Qual qualidade espacial, princípio ou ideia despertou meu interesse?
  • Tema arquitetônicoO que quero investigar? Qual problema arquitetônico será aprofundado por meio da pesquisa?
  • Programa arquitetônicoO que o edifício precisa fazer? Quais usos, atividades e necessidades deverão ser atendidos?
  • Partido arquitetônicoComo tudo isso se transforma em espaço? Como conceito, tema, programa, lugar, técnica e construção passam a formar uma única arquitetura?

Perceba que o partido não substitui nenhum desses elementos.

Ele os reúne.

Um bom partido deve tornar visível, em uma única imagem, tudo aquilo que foi aprendido durante a pesquisa. O conceito precisa estar presente na atmosfera e na intenção espacial do projeto. O tema deve aparecer nas decisões que respondem ao problema arquitetônico investigado. O programa deve estar organizado de forma coerente e funcional. E todas essas dimensões precisam dialogar com o lugar, com a técnica construtiva e com a experiência das pessoas.

Quando isso acontece, o partido deixa de ser apenas um desenho inicial e passa a ser a síntese arquitetônica do projeto.

É por isso que León Leroy Zoeger afirma que o partido é a primeira manifestação da complexa síntese de ideias espaciais, estéticas e funcionais que irão se desenvolver ao longo do processo. É a primeira imagem percebida pelo arquiteto, acompanhada da sensação do “espírito” da obra, funcionando como a semente de tudo aquilo que será posteriormente construído.

Em outras palavras, o conceito dá origem à intenção, o tema produz conhecimento, o programa apresenta as necessidades, e o partido transforma tudo isso em arquitetura. A partir dele, o projeto deixa de ser apenas uma coleção de ideias e começa a existir como uma proposta espacial concreta, coerente e capaz de orientar todas as etapas seguintes do processo de projeto.

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